Diretriz
Atualização SBP 2026 - Reanimação Neonatal em Sala de Parto
O que muda nas Diretrizes SBP 2026?
A Sociedade Brasileira de Pediatria publicou as novas diretrizes de reanimação neonatal em sala de parto para o ciclo 2026–2030, agora organizadas em dois fluxos principais:
Recém-nascido ≥34 semanas
Recém-nascido <34 semanas
A grande mensagem da atualização é: a reanimação neonatal começa antes do nascimento.
A diretriz reforça a importância de preparo da equipe, briefing, checagem do material, manutenção térmica, manejo adequado do cordão, ventilação no primeiro minuto quando indicada e debriefing após o atendimento.
Principais mudanças para guardar
A diretriz separa a abordagem do RN ≥34 semanas e do RN <34 semanas.
O manejo do cordão ganhou mais destaque.
A boa vitalidade continua sendo definida por respiração/choro + tônus em flexão.
O líquido meconial não muda a conduta se o RN está vigoroso.
A VPP continua sendo a intervenção mais importante da reanimação neonatal.
No RN <34 semanas, a VPP passa a iniciar com FiO₂ de 60%.
A ordenha de cordão pode ser considerada em situações específicas, mas é contraindicada em prematuros <28 semanas.
O surfactante não deve ser feito rotineiramente na sala de parto.
Briefing, debriefing e indicadores de qualidade passam a ter papel central na assistência.
Foco nas provas de residência médica 2026/2027
1. O novo recorte: ≥34 semanas vs <34 semanas
A prova deve começar a cobrar dois fluxos diferentes.
RN ≥34 semanas
Inclui recém-nascidos a termo e pré-termos tardios.
RN <34 semanas
Inclui prematuros moderados, muito prematuros e prematuros extremos.
Essa divisão muda principalmente:
equipe necessária;
cuidado térmico;
uso de CPAP;
equipamento para VPP;
concentração inicial de oxigênio;
conduta após o clampeamento do cordão.
A pergunta inicial continua sendo:
O RN tem boa vitalidade?
Boa vitalidade significa:
respira ou chora;
tem tônus em flexão.
Se houver boa vitalidade, o RN segue para cuidados de rotina/estabilização. Se não houver, entra no fluxo de reanimação.
2. Manejo do cordão: respirar antes de clampear
Um dos pontos mais importantes da atualização é o reforço de que, sempre que possível, o RN deve iniciar a respiração antes do clampeamento do cordão.
RN com boa vitalidade
Conduta:
clampear o cordão após pelo menos 60 segundos;
manter normotermia;
favorecer contato pele a pele quando adequado;
estimular aleitamento na primeira hora, se possível.
RN sem boa vitalidade
Conduta inicial:
Realizar estímulo tátil delicado no dorso por cerca de 15 segundos.
Observar se o RN inicia movimentos respiratórios.
Se começar a respirar, aguardar o clampeamento até completar pelo menos 60 segundos.
Se permanecer em apneia, respiração irregular ou hipotonia, clampear e levar imediatamente à mesa de reanimação.
Ponto de prova: o manejo do cordão não pode atrasar a ventilação em RN sem boa vitalidade.
3. Ordenha de cordão: nova pegadinha
A ordenha do cordão ganhou mais espaço na atualização, mas não é para todos.
RN ≥34 semanas
Se o RN não apresenta boa vitalidade e não inicia respiração após estímulo tátil, a ordenha do cordão pode ser considerada antes do clampeamento precoce.
RN <34 semanas
Se não for possível aguardar 60 segundos para clampear, a ordenha pode ser considerada apenas em RN com:
idade gestacional ≥28 semanas.
Contraindicação importante
Em prematuros <28 semanas, a ordenha do cordão é contraindicada, pelo risco aumentado de hemorragia intracraniana grave.
Ponto de prova:
RN de 26 semanas sem boa vitalidade → não fazer ordenha de cordão.
4. O Minuto de Ouro continua central
A VPP deve ser iniciada nos primeiros 60 segundos após o nascimento quando indicada.
Indicações de VPP:
apneia;
respiração irregular;
FC <100 bpm.
A intervenção mais importante da reanimação neonatal é:
ventilação efetiva.
Não é adrenalina.
Não é massagem cardíaca.
Não é intubação imediata.
É VPP bem feita.
5. Alvos de saturação pré-ductal
A saturação deve ser medida no membro superior direito, pois representa a SpO₂ pré-ductal.
Tempo após nascimento | SpO₂ alvo |
|---|---|
2 minutos | 65–70% |
3 minutos | 70–75% |
4 minutos | 75–80% |
5 minutos | 80–85% |
10 minutos | 85–95% |
Ponto de prova: não se espera SpO₂ de 95–100% nos primeiros minutos de vida.
6. Grande mudança no prematuro <34 semanas: VPP começa com O₂ a 60%
Essa é uma das principais mudanças práticas da diretriz.
RN ≥34 semanas
A VPP inicial com máscara facial deve começar em:
ar ambiente — FiO₂ 21%.
Se houver necessidade de VPP por cânula traqueal, utilizar O₂ a 60% e ajustar conforme a SpO₂ pré-ductal.
RN <34 semanas
A VPP deve começar com:
FiO₂ 60%.
Preferir:
ventilador mecânico manual com Peça-T;
blender;
gases aquecidos e umidificados;
ajuste da FiO₂ conforme a SpO₂ alvo.
A FiO₂ deve ser ajustada, em geral, em passos de 20% a cada 30 segundos, conforme a resposta clínica e a oximetria.
Pérola de prova:
RN de 30 semanas, apneico e FC 80 bpm → VPP com Peça-T e O₂ a 60%.
7. Frequência da VPP
A VPP deve ser feita com frequência de:
30–60 movimentos por minuto.
RN ≥34 semanas
VPP inicial com máscara em ar ambiente.
Pode ser feita com balão autoinflável ou Peça-T.
A Peça-T é preferível quando disponível, por permitir pressões mais controladas.
RN <34 semanas
Preferir Peça-T.
Iniciar com FiO₂ 60%.
Usar PEEP de 5–6 cmH₂O quando aplicável.
Gases aquecidos e umidificados ajudam a manter normotermia.
8. CPAP: quando usar?
O CPAP não é para todo RN.
RN <34 semanas
Indicar CPAP se o RN apresenta:
FC ≥100 bpm;
respiração espontânea;
desconforto respiratório e/ou SpO₂ abaixo do alvo.
Parâmetro usual:
CPAP 5–6 cmH₂O.
Preferir Peça-T, com gases aquecidos e umidificados.
Atenção: balão autoinflável não fornece CPAP confiável.
RN ≥34 semanas
O CPAP pode ser considerado se houver:
respiração espontânea;
FC ≥100 bpm;
desconforto respiratório;
SpO₂ abaixo do alvo.
Mas deve haver cautela, pois o uso indiscriminado de CPAP em RN ≥34 semanas pode aumentar risco de complicações, como pneumotórax.
9. Surfactante no prematuro
No RN <34 semanas, o surfactante não deve ser administrado rotineiramente na sala de parto.
A diretriz favorece:
estabilização inicial;
CPAP/VPP conforme necessidade;
avaliação clínica após estabilização;
surfactante nas primeiras horas de vida se houver desconforto respiratório persistente ou piora clínica.
Pérola de prova: prematuro nasceu ≠ surfactante automático em sala de parto.
10. Fluxo do RN ≥34 semanas
Com boa vitalidade
Conduta:
clampeamento do cordão ≥60 segundos;
contato pele a pele com a mãe;
manutenção da normotermia;
vias aéreas pérvias;
avaliação contínua;
aleitamento na primeira hora, se possível.
Sem boa vitalidade
Conduta:
Estímulo tátil no dorso por cerca de 15 segundos.
Se respirar, aguardar clampeamento ≥60 segundos.
Se não respirar ou persistir hipotônico, clampear e levar à mesa de reanimação.
Fazer passos iniciais em até 30 segundos:
aquecer;
secar;
retirar campos úmidos;
colocar touca;
posicionar pescoço em leve extensão;
aspirar vias aéreas apenas se houver obstrução.
Se apneia, respiração irregular ou FC <100 bpm: iniciar VPP.
11. Líquido meconial
O líquido meconial não muda a conduta se o RN está vigoroso.
RN vigoroso com mecônio
Conduta:
cuidados habituais;
sem aspiração de rotina;
sem intubação para aspiração traqueal.
RN não vigoroso com mecônio
Conduta:
seguir fluxo de reanimação;
aspirar apenas se houver obstrução de vias aéreas;
não atrasar a VPP.
Ponto de prova: mecônio não é indicação automática de aspiração traqueal.
12. Fluxo do RN <34 semanas
Antes do nascimento, a equipe deve se preparar.
Preparação
anamnese materna e fetal;
sala entre 23–25°C;
fonte de calor ligada;
material testado;
briefing da equipe;
equipe treinada;
em gestação múltipla, equipe para cada RN.
RN <34 semanas com boa vitalidade
Se o RN tem boa vitalidade:
clampeamento ≥60 segundos.
Nos RN de 32 a 33 semanas e 6 dias, pode-se considerar contato pele a pele, se houver monitorização adequada.
Nos RN <32 semanas, após o clampeamento, levar à mesa de reanimação sob calor radiante para estabilização inicial.
RN <34 semanas sem boa vitalidade
Conduta:
Estímulo tátil delicado no dorso por cerca de 15 segundos.
Se respirar, aguardar clampeamento ≥60 segundos.
Se não respirar, clampear sem atrasar a reanimação.
Levar à mesa de reanimação.
Iniciar passos iniciais e monitorização.
13. Passos iniciais no prematuro <34 semanas
Os passos iniciais devem ocorrer em até 30 segundos.
Incluem:
fonte de calor radiante;
saco plástico de polietileno;
touca dupla;
pescoço em leve extensão;
aspiração apenas se houver obstrução;
monitor cardíaco;
oxímetro de pulso no membro superior direito;
em RN <1000 g, considerar colchão térmico químico.
Se houver apneia, respiração irregular ou FC <100 bpm:
iniciar VPP com Peça-T e FiO₂ 60%.
14. Frequência cardíaca: o número que manda
A frequência cardíaca é o principal parâmetro para guiar a reanimação.
FC ≥100 bpm
Geralmente indica boa resposta, mantendo suporte conforme respiração e SpO₂.
FC <100 bpm
Indica necessidade de VPP ou correção da ventilação.
FC <60 bpm
Após VPP efetiva, indica necessidade de massagem cardíaca.
O monitor cardíaco permite avaliação mais rápida e contínua da FC. A ausculta e a palpação do cordão podem subestimar a frequência cardíaca.
15. Quando intubar?
A intubação não é a primeira resposta para todo RN grave.
Indicações principais:
VPP com máscara inefetiva apesar de correção técnica;
necessidade de massagem cardíaca;
suspeita de obstrução de via aérea que não resolve com medidas simples;
situações especiais, como hérnia diafragmática congênita.
No RN ≥34 semanas, a máscara laríngea ganha importância como alternativa quando a ventilação com máscara facial é inefetiva ou quando há dificuldade de intubação.
Cada tentativa de intubação deve durar, no máximo:
30 segundos.
16. Massagem cardíaca
Indicação:
FC <60 bpm após ventilação efetiva.
Conduta:
ventilar preferencialmente por cânula traqueal;
usar O₂ a 100%;
técnica dos dois polegares;
relação compressão:ventilação = 3:1;
total por minuto = 90 compressões + 30 ventilações;
reavaliar FC após 60 segundos.
Pérola de prova: massagem cardíaca neonatal não é 30:2. É 3:1.
17. Medicações
Medicação só entra quando a ventilação e a massagem estão adequadas.
Adrenalina
Indicação:
FC <60 bpm apesar de VPP efetiva com O₂ a 100% e massagem cardíaca adequada.
Via preferencial:
intravascular, idealmente veia umbilical.
Preparo:
adrenalina 1 mg/mL;
diluir 1 mL em 9 mL de SF 0,9%;
concentração final: 0,1 mg/mL.
Dose intravascular:
0,2 mL/kg da solução diluída.
Pode repetir a cada 3–5 minutos, se necessário.
Via endotraqueal
Pode ser usada uma única vez enquanto se obtém acesso vascular.
Dose:
1,0 mL/kg da solução diluída.
A via endotraqueal não deve atrasar a obtenção do acesso vascular.
Expansor de volume
Indicado se houver suspeita de:
hipovolemia;
perda sanguínea;
choque.
Usar:
SF 0,9% — 10 mL/kg EV, lentamente, em 5–10 minutos.
18. Aspectos éticos
As decisões devem considerar idade gestacional, peso estimado, vitalidade, malformações, infecção, uso de corticoide antenatal, contexto assistencial e decisão compartilhada com a família.
RN ≥24 semanas
Em geral, há justificativa para intervenção ativa, conforme contexto clínico.
RN <22 semanas
A diretriz considera que ainda não há maturidade suficiente para sobrevida com as tecnologias atuais, priorizando cuidado de conforto e suporte à família.
RN 22–23 semanas
É zona cinzenta.
A decisão deve ser individualizada e compartilhada, considerando prognóstico e recursos disponíveis.
Interrupção da reanimação
Se não houver resposta às manobras avançadas, a equipe deve discutir a interrupção dos procedimentos por volta de 20 minutos após o nascimento.
19. Transporte para a unidade neonatal
O RN deve ser transportado apenas após estabilização.
Nunca transportar RN com FC <100 bpm.
Antes do transporte:
garantir via aérea pérvia;
manter suporte ventilatório se necessário;
monitorar FC, respiração e SpO₂;
manter normotermia;
usar incubadora aquecida;
no prematuro extremo, manter medidas de proteção térmica.
Pérola: transporte não é “levar rápido para resolver depois”. O RN precisa sair da sala de parto estabilizado.
20. Qualidade assistencial: briefing, debriefing e indicadores
A diretriz 2026 reforça que reanimação neonatal é trabalho de sistema, não apenas habilidade individual.
Antes do parto: briefing
Revisar:
quem lidera;
quem ventila;
quem monitora;
quem prepara material;
fatores de risco maternos e fetais;
plano para cordão, aquecimento, ventilação e transporte.
Depois do atendimento: debriefing
Discutir:
o que funcionou;
o que atrasou;
se a VPP começou no primeiro minuto;
se a temperatura foi adequada;
se houve falha de material;
se a comunicação foi efetiva;
quais melhorias precisam ser feitas.
A diretriz também valoriza indicadores como:
profissional treinado presente;
clampeamento ≥60 segundos quando indicado;
VPP iniciada no primeiro minuto;
temperatura adequada;
registro dos eventos;
análise de causa das falhas.
Como a prova vai cobrar
Caso 1
RN ≥34 semanas, líquido meconial, chorando e com tônus bom.
Resposta: boa vitalidade. Clampeamento ≥60 segundos, pele a pele e sem aspiração de rotina.
Caso 2
RN ≥34 semanas, apneico e hipotônico.
Resposta: estímulo tátil no dorso por cerca de 15 segundos. Se não respirar, clampear e iniciar fluxo de reanimação.
Caso 3
RN de 30 semanas, apneico e FC 80 bpm.
Resposta: VPP com Peça-T, FiO₂ 60%, monitor cardíaco e oximetria.
Caso 4
RN de 26 semanas sem boa vitalidade e sem possibilidade de aguardar clampeamento.
Resposta: não fazer ordenha de cordão. Em <28 semanas, a ordenha é contraindicada.
Caso 5
RN intubado, ventilado, com FC 50 bpm.
Resposta: massagem cardíaca 3:1 com O₂ a 100%.
Caso 6
Após 60 segundos de VPP por cânula traqueal e massagem adequada, FC segue <60 bpm.
Resposta: adrenalina intravascular, preferencialmente por veia umbilical.
Resumo de bolso
Boa vitalidade = respira/chora + tônus em flexão.
Cordão: clampear após ≥60 segundos sempre que possível.
Sem vitalidade: estímulo no dorso por ~15 segundos.
Não atrasar VPP.
VPP deve começar no primeiro minuto quando indicada.
RN ≥34 semanas: VPP inicial com máscara em ar ambiente.
RN <34 semanas: VPP com FiO₂ 60%.
SpO₂ de 95–100% não é alvo nos primeiros minutos.
Aspirar vias aéreas só se houver obstrução.
Mecônio não muda conduta se RN está vigoroso.
CPAP em <34 semanas: FC ≥100 + respiração espontânea + desconforto ou SpO₂ baixa.
Balão autoinflável não fornece CPAP confiável.
Surfactante não é rotina na sala de parto.
Massagem cardíaca: FC <60 após ventilação efetiva.
Relação compressão:ventilação = 3:1.
Adrenalina só após ventilação e massagem adequadas sem resposta.
Nunca transportar RN com FC <100 bpm.
Briefing e debriefing fazem parte da assistência.
Dica de ouro
Para prova, grave a sequência:
15 segundos → 60 segundos → 60 segundos
15 segundos de estímulo tátil se RN sem boa vitalidade.
60 segundos para clampear se o RN respira.
60 segundos é o limite do Minuto de Ouro para iniciar VPP quando indicada.
E grave a maior diferença prática:
RN ≥34 semanas: VPP inicial com máscara em ar ambiente.
RN <34 semanas: VPP com FiO₂ 60%.
Essa é a atualização que mais provavelmente vai aparecer em prova.