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MedDrop #38

Calor e sepse: as duas crises que o Brasil não pode ignorar

🏥 Plantão #38 — Terça-feira, 31 de Março de 2026

⏱ ~8 min de leitura | 12 stories

_A medicina que importa, todo dia._

🧠 Hoje eu aprendi...

que a primeira dose de penicilina em humanos foi dada em 1941, a um policial britânico de 43 anos chamado Albert Alexander que tinha uma infecção grave no rosto. Ele melhorou dramaticamente, mas a penicilina acabou antes da cura completa e ele morreu semanas depois. Só em 1944 a produção em escala tornou o antibiótico amplamente disponível. _Fonte: CDC, Howard Florey Papers_

No Plantão de hoje:

• Calor e desnutrição infantil: o novo estudo Fiocruz que conecta clima e crescimento

• Sepse Pediátrica 2026: a maior atualização em seis anos das diretrizes da Surviving Sepsis Campaign

• 🩺 Na Prática: os primeiros minutos no choque séptico pediátrico

• ⚡ 6 Quick Drops

• 📊 Contra Dados: o mapa da SRAG no Brasil

Quando o calor vira inimigo da infância...

Cada grau acima de 26°C aumenta em 10% o risco de baixo peso e em 8% o de desnutrição aguda ou crônica. Esse é o resultado de um estudo do Cidacs/Fiocruz Bahia publicado no Lancet Planetary Health, que acompanhou mais de 6 milhões de crianças brasileiras entre 2007 e 2017. O mecanismo é uma cascata: calor reduz apetite, altera o metabolismo, aumenta diarreia aguda e prejudica a absorção de micronutrientes. Os impactos não aparecem no dia seguinte — baixo peso e desnutrição aguda se manifestam em até três semanas após a exposição, enquanto o atraso de crescimento está associado à exposição contínua ao longo do tempo. E as desigualdades são brutalmente desiguais: crianças indígenas apresentam 26,65% de atraso no crescimento contra 10,4% em meninos de forma geral. Regiões Norte e Nordeste, áreas rurais e filhos de mães indígenas ou pretas carregam o peso desproporcional desse risco.

Para a saúde pública brasileira, o estudo é um alerta doble: períodos prolongados de calor reduzem a produtividade agrícola, encarecem alimentos e diminuem a diversidade alimentar. O resultado é um duplo impacto nas famílias mais pobres — menos comida e menos renda. A pesquisadora Priscila Ribas, uma das autoras, sugere a integração de alertas meteorológicos com a Atenção Primária à Saúde para proteger crianças durante ondas de calor. Em um planeta em aquecimento, tratar o calor como desconforto e não como determinante de saúde é um erro que vai custar caro.

🔗 https://fiocruz.br/noticia/2026/03/aumento-da-temperatura-ambiente-eleva-chance-de-desnutricao-infantil

Sepse Pediátrica 2026: o que mudou nas diretrizes da Surviving Sepsis Campaign

Sessenta e uma recomendações, 20 delas completamente novas. A Surviving Sepsis Campaign publicou em 23 de março de 2026 a maior atualização de suas diretrizes para sepse e choque séptico em crianças desde 2020. As mudanças mais práticas: antibióticos em até uma hora para choque séptico suspeito e até três horas para sepse sem hipotensão. Sobre fluido, crystalloide balanceado (preferencialmente) em bolus de 10 a 20 mL/kg até 40 a 60 mL/kg na primeira hora. A boa notícia: não há mais preferência entre norepinefrina e epinefrina como vasoativo de primeira linha. Point-of-care ultrasound é agora recomendado para guiar ressuscitação quando treinamento e recursos locais permitirem. E os vasopressores podem ser iniciados por acesso periférico sem esperar via central.

Há também o que não mudou: culturas antes dos antibióticos quando possível, desescalonamento após antibiograma, controle da fonte o mais rápido possível. Outra mudança relevante para sistemas sem terapia intensiva: usar bolus de fluido谨慎mente quando UTI não estiver disponível. A diretriz reconhece explicitamente que em sistemas de saúde com recursos limitados, a evidência pesa contra o uso indiscriminado de fluidos em pacientes sem hipotensão.

Para o Brasil, onde o SAE e as emergências pediátricas variam enormemente em estrutura entre municípios, as novas diretrizes trazem flexibilidade baseada em contexto. A recomendação de usar POCUS em vez de monitorização avançada é particularmente relevante para realidades onde o recurso a cateter de artéria pulmonar é ficção científica.

🔗 https://www.sccm.org/clinical-resources/guidelines/guidelines/surviving-sepsis-campaign-international-guidelines-for-the-management-of-sepsis-and-septic-shock-in

QUICK DROPS

🌎 _Mundo Afora_

FDA: Aprovado Yuviwel (navepegritida), primeiro prodrog com dose semanal para acondroplasia em crianças. Funciona por exposição contínua ao peptídeo natriurético tipo C. https://www.fda.gov/drugs/novel-drug-approvals-fda/novel-drug-approvals-2026

WHO: Situação global da mpox — último relatório (26/03) com dados até fevereiro. África continua como epicentro com transmissão ativa em múltiplos países. https://www.who.int/publications/m/item/multi-country-outbreak-of-mpox--external-situation-report--64---26-march-2026

OMS: Cólera em alta de 3% em fevereiro vs janeiro, com 269 mortes (48% mais que janeiro). Dezessete países afetados, maioria na África. https://www.who.int/emergencies/disease-outbreak-news

🇧🇷 _Brasil Adentro_

Fiocruz/InfoGripe: SRAG com 24.281 casos notificados em 2026. Rinovírus lidera positividade (45%), influenza A responde por 28% e segue em alta no Norte, Nordeste e Sudeste. https://fiocruz.br/noticia/2026/03/infogripe-numero-de-casos-de-influenza-segue-aumentando-no-norte-sudeste-e-nordeste

CONITEC: Nirsevimabe incorporado ao SUS para prevenção de VSR em prematuros com comorbidades. Protocolo publicado em 7 de março. https://www.gov.br/conitec/pt-br/midias/reuniao_conitec/2026/pauta-149a-reuniao-medicamentos

CFM: Resolução 2.444/2025, que estabelece medidas obrigatórias de segurança para médicos em unidades de saúde, entrou em vigor em março de 2026. https://portal.cfm.org.br/noticias/entra-em-vigor-resolucao-do-cfm-que-estabelece-medidas-obrigatorias-de-seguranca-para-medicos-em-unidades-de-saude/

🩺 NA PRÁTICA — Choque Séptico Pediátrico: Primeiros 60 Minutos

1. Reconhecer: letargia, taquicardia desproporcional, pulso periférico fraco, tempo de reperfusão > 3 segundos, oligúria. Pressão arterial pode estar normal antes do colapso.

2. Antibióticos: idealmente na primeira hora. Colher culturas primeiro se não atrasar. Cobertura empírica ampla para Gram-negativos, Gram-positivos e eventualmente fungos em imunocomprometidos.

3. Fluido: 10 a 20 mL/kg de cristalóide balanceado (Ringer lactato ou Plasma-Lyte) em bolus. Reavaliar após cada bolus. Parar se aparecer estertores, hepatomegalia ou aumento da pressão de ventilação.

4. Vasoativos: se persiste hipotensão ou sinais de baixo débito após 40 a 60 mL/kg, iniciar. Acesso periférico é aceitável para norepinefrina ou epinefrina — não esperar via central.

5. POCUS à beira do leito: avaliar presença de líquido livre, função ventricular, colapsabilidade da veia cava. Útil quando monitorização invasiva não disponível.

6. Fonte: controlar o quanto antes. Desbridamento, drenagem, remoção de dispositivo suspeito.

Lembrete: a meta de ScvO2 maior ou igual a 70% continua como alvo razoável quando acesso venoso central está disponível.

📊 CONTRA DADOS NÃO HÁ ARGUMENTOS

Das 27 capitais brasileiras, 22 estão em nível de alerta, risco ou alto risco para SRAG, segundo o InfoGripe de 26 de março. A predominância entre os positivos é rinovírus em crianças (45%) e influenza A em adultos e idosos. A mortalidade, porém, concentra-se nos idosos — onde a Covid-19 responde por 29% dos Deaths e influenza A por 36%.

🔗 https://fiocruz.br/noticia/2026/03/infogripe-numero-de-casos-de-influenza-segue-aumentando-no-norte-sudeste-e-nordeste

_De plantão pra você, Will 🎩 | Edição #38_