Diretriz
Diretrizes para o manejo do Lupus Eritematoso Sistêmico (LES) - ACR 2025
A American College of Rheumatology (ACR) publicou as diretrizes de 2025 para o tratamento do Lupus Eritematoso Sistêmico. Diferente de versões anteriores, este guia foca exclusivamente no tratamento, orientando a intensidade da terapia conforme a gravidade da atividade da doença. O que muda? Intervenção precoce e agressiva quando necessária, mas cuidando para evitar o dano crônico causado pelos próprios medicamentos – especialmente os corticoides.
Pilares Terapêuticos
Hidroxicloroquina
A hidroxicloroquina permanece como a base do tratamento para todos os pacientes, mesmo aqueles em remissão.
Dose preferencial: ≤ 5 mg/kg/dia para reduzir o risco de retinopatia.
Rastreio oftalmológico: deve ser realizado no início do tratamento e, posteriormente, anualmente (não ultrapassando 5 anos do início). Para a cloroquina, o rastreio deve ser mais rigoroso (cada 4-6 meses).
Glicocorticoides
A diretriz enfatiza o seguinte: os corticoides devem ser utilizados na menor dose possível e pelo menor tempo necessário.
Mudança de Esquema: Em casos de atividade grave, prefere-se o uso de pulsos de metilprednisolona seguidos de uma redução rápida, em vez de manter doses orais intermediárias (como 1 mg/kg) por períodos prolongados.
Meta de Descontinuação: O objetivo principal agora é a descontinuação total. Para pacientes estáveis, a meta é atingir uma dose ≤ 5 mg/dia de prednisona em 6 meses. Se isso não for alcançado, deve-se intensificar a imunossupressão com outros agentes para permitir a retirada do corticoide.
Imunossupressores
A diretriz organiza os imunossupressores em uma lógica de escalonamento conforme o órgão acometido e a gravidade.
Eles devem ser iniciados juntos com o glicocorticoide — não de forma sequencial. A ideia é que ele assuma o controle da doença enquanto o corticoide é retirado
Convencionais:
Micofenolato (MMF) e azatioprina são os agentes de manutenção preferidos na maioria das manifestações. MMF tem preferência em doença renal e mais grave; azatioprina é a escolha em gestação.
Ciclofosfamida fica reservada para doença órgão-ameaçadora (nefrite proliferativa, mielite), sendo substituída por MMF ou azatioprina assim que possível.
Metotrexato é preferido para manifestações articulares e cutâneas refratárias.
Biológicos:
Belimumabe — doença moderada a grave com acometimento musculoesquelético, cutâneo ou renal.
Anifrolumabe — doença moderada a grave com predomínio cutâneo/musculoesquelético, especialmente com assinatura de interferon positiva.
Rituximabe — sem aprovação formal para LES, mas aceito em casos refratários (citopenias, nefrite).
Definição de Alvos
O manejo do lupus agora utiliza métricas para definir o sucesso terapêutico
Estado | Critérios | |
|---|---|---|
LLDAS (Low Disease Activity State) | SLEDAI ≤ 4, dose de prednisona ≤ 7.5 mg/dia e avaliação global do médico (PGA) < 1. | |
Remissão (Critérios Doris) | SLEDAI = 0, prednisona ≤ 5 mg/dia e PGA < 0.5 |
Manejo por Órgãos e Sistemas
Nefrite Lúpica (Classes III, IV e V): A grande novidade é a recomendação de terapia tripla inicial (corticoide + micofenolato + um terceiro agente como inibidor de calcineurina ou belimumab). Para a Classe V pura, a estratégia "multitarget" com voclosporina ganha destaque.
Manifestações Neuropsiquiátricas: Casos graves como mielite e psicose lúpica exigem agressividade com pulsos de ciclofosfamida.
Pele: Fotoproteção rigorosa (FPS elevado) é mandatória para todos, independentemente de lesões ativas.
Comorbidades e Saúde Reprodutiva
Profilaxia para Pneumocystis jirovecii: Indicada em pacientes em uso de prednisona > 15 mg/dia por mais de 2-4 semanas, devem receber profilaxia com sulfametoxazol-trimetoprim.
Planejamento Familiar: A gestação deve ser planejada apenas quando a paciente estiver em LLDAS por 4 a 6 meses com medicação não teratogênica. Métodos contraceptivos livres de estrogênio são preferidos devido ao risco trombótico.
Conclusão
Esta diretriz reforça que o tratamento do lupus deixou de ser uma "escada" lenta para se tornar uma intervenção precoce e agressiva quando necessária, sempre com o olhar atento para evitar o dano crônico causado pelos próprios medicamentos (especialmente os corticoides).
Tabela comparativa
Tópico | Diretriz anterior | Nova ACR 2025 | ||||
|---|---|---|---|---|---|---|
Glicocorticoides Esquema e meta | Uso prolongado de doses orais intermediárias (ex: 1 mg/kg). Sem meta rígida de descontinuação | Em atividade grave: pulsos de metilprednisolona seguidos de redução rápida Descontinuação total: ≤ 5 mg/dia de prednisona em 6 meses; se não, intensificar imunossupressão | ||||
Definição de alvos | Sem adoção formal de LLDAS e remissão DORIS | LLDAS e Remissão (DORIS) como métricas oficiais | ||||
Nefrite lúpica | Terapia dupla (corticoide + micofenolato) | Terapia tripla inicial: corticoide + micofenolato + terceiro agente (calcineurina ou belimumabe) | ||||
Fotoproteção | Recomendação genérica | FPS elevado – mandatório para todos, com ou sem lesões ativas | ||||
Planejamento gestacional | Apenas "remissão ou baixa atividade" | Exigência de LLDAS por 4-6 meses + medicação não teratogênica |
⚠️ Este post resume alguns pontos da diretriz do American College of Rheumatology (ACR) para o manejo do LES.
Pode conter erros, omissões ou imprecisões
Recomenda-se a leitura do documento original - 2025 American College of Rheumatology Guideline for the Treatment of Systemic Lupus Erythematosus