Atualização
Profilaxia com ferro em lactentes: o que realmente mudou na atualização 2026 da SBP
A nova diretriz da Sociedade Brasileira de Pediatria sobre deficiência de ferro e anemia ferropriva em lactentes trouxe uma mudança prática, relevante e com cara de prova. O ponto central foi a revisão da profilaxia com ferro para lactentes a termo, com peso adequado e sem fatores de risco, aproximando a recomendação da SBP ao modelo já adotado pelo Ministério da Saúde.
O que mudou de verdade
Até aqui, o que muita gente decorava era a lógica antiga da SBP: 1 mg/kg/dia de ferro elementar, de forma contínua, com início aos 6 meses nos lactentes a termo sem fatores de risco. A atualização 2026 mudou esse raciocínio. Agora, para esse grupo, a profilaxia passa a ser feita com dose fixa diária de 10 a 12,5 mg de ferro elementar, independentemente do peso, em dois ciclos de três meses, com três meses de pausa entre eles.
Como isso fica na prática
O esquema que precisa ficar na cabeça é simples.
Dos 6 aos 9 meses, a criança recebe 10 a 12,5 mg/dia.
Dos 9 aos 12 meses, faz-se pausa.
Dos 12 aos 15 meses, reinicia-se o mesmo esquema por mais três meses.
Esse modelo substitui, para o lactente a termo sem fatores de risco, a lógica antiga de dose calculada por quilo e uso contínuo. É exatamente esse o ponto que diferencia a diretriz nova da anterior.
Por que isso importa
Porque não foi uma mudança cosmética. A atualização tenta resolver um problema real da prática pediátrica brasileira: a divergência entre o que a SBP orientava e o que o Ministério da Saúde já operava no Programa Nacional de Suplementação de Ferro. Com a nova diretriz, a profilaxia do lactente a termo fica mais padronizada, mais fácil de prescrever na puericultura e mais coerente com a rede pública.
O que continua igual no raciocínio clínico
A diretriz não relativiza a importância da deficiência de ferro. O problema continua sendo especialmente relevante nos primeiros dois anos de vida, fase em que a demanda metabólica é alta e em que os prejuízos da carência de ferro podem repercutir sobre crescimento, imunidade e neurodesenvolvimento. A orientação de manter aleitamento materno, valorizar introdução alimentar com fontes adequadas de ferro e evitar leite de vaca in natura antes de 12 meses segue muito importante na prevenção.
Quem não entra nessa regra nova
A grande mudança vale para o lactente a termo, com peso adequado e sem fatores de risco. Prematuros e recém-nascidos de baixo peso continuam sendo outro capítulo. Neles, a suplementação segue mais precoce, com início por volta de 30 dias de vida, em dose calculada por peso: 2 mg/kg/dia se o peso ao nascer foi entre 1.500 e 2.500 g, 3 mg/kg/dia entre 1.000 e 1.500 g e 4 mg/kg/dia abaixo de 1.000 g. No segundo ano de vida, esse grupo mantém 1 mg/kg/dia de forma contínua.
E o tratamento da anemia ferropriva?
Aqui, a atualização não trouxe uma guinada semelhante à profilaxia. O tratamento segue baseado em 3 a 6 mg/kg/dia de ferro elementar, com manutenção por três a seis meses e reavaliação laboratorial após o início da terapia, esperando-se elevação da hemoglobina de pelo menos 1 g/dL em cerca de 30 a 45 dias. Isso importa porque, em prova e na prática, profilaxia e tratamento não podem ser misturados.
O que vale decorar para prova
A frase mais importante da diretriz 2026 é esta: a SBP abandonou, para o lactente a termo sem fatores de risco, a profilaxia contínua de 1 mg/kg/dia e passou a recomendar dose fixa de 10 a 12,5 mg/dia em dois ciclos de três meses, com intervalo de três meses entre eles. Se a questão quiser o ponto mais novo, é esse. Se quiser o ponto mais prático, também é esse.
Considerações finais
Essa é uma atualização que merece atenção porque muda conduta de consultório, muda resposta de prova e simplifica o manejo no dia a dia. O residente que ficar preso ao esquema antigo de 1 mg/kg/dia contínuo para todo lactente a termo vai errar questão e pode prescrever diferente do que a diretriz atual passou a recomendar. Para quem atende puericultura, o recado é objetivo: a profilaxia com ferro ficou mais simples, mais padronizada e mais alinhada ao SUS.
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