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MedDrop #63

Tividenofusp alfa na Síndrome de Hunter e Novas Diretrizes ABESO 2026

🏥 Plantão #63 — Terça-feira, 28 de Abril de 2026

⏱ ~6 min de leitura | 11 stories

_A medicina que importa, todo dia._

🧠 Hoje eu aprendi...

que a barreira hematoencefálica foi descoberta em etapas: primeiro, Paul Ehrlich (1885) viu que corantes injetados no sangue não tingiam o cérebro; depois, Edwin Goldmann (1913) injetou no líquor e viu que o corante não saía para o corpo. A barreira funciona nos dois sentidos.

_Fonte: Saunders et al., The blood-brain barrier: Lessons from history, Frontiers in Neuroscience, 2014_

No Plantão de hoje:

• Transpondo a barreira: Tividenofusp alfa muda o jogo na Síndrome de Hunter

• Diretrizes ABESO 2026: o fim do tratamento farmacológico isolado para obesidade

• 🩺 Na Prática: Protocolo de Hipercalemia no pronto-socorro

• ⚡ 6 Quick Drops

• 📈 Contra Dados: A epidemia silenciosa do burnout médico no Brasil

Transpondo a barreira: Tividenofusp alfa e a nova era para a Síndrome de Hunter

Um dos maiores desafios da medicina moderna é fazer com que terapias complexas atravessem a barreira hematoencefálica (BHE) para tratar manifestações neurológicas. Na Síndrome de Hunter (Mucopolissacaridose II), a reposição enzimática convencional falha em atingir o sistema nervoso central. No entanto, um estudo publicado no New England Journal of Medicine (NEJM) em abril de 2026 revela o sucesso do Tividenofusp alfa, uma proteína de fusão projetada para "pegar carona" no receptor de transferrina e cruzar a BHE.

O estudo de Fase 3, multinacional e randomizado, demonstrou que o Tividenofusp alfa reduziu significativamente os níveis de heparano sulfato no líquido cefalorraquidiano (LCR), um biomarcador crítico da carga da doença no cérebro. Pacientes tratados apresentaram estabilização ou melhora nas funções cognitivas e motoras, algo que as terapias anteriores não conseguiam garantir. A engenharia por trás do fármaco envolve a fusão da enzima iduronato-2-sulfatase a um domínio Fc modificado que se liga ao receptor de transferrina, permitindo o transporte ativo para dentro do parênquima cerebral.

Com base nesses resultados, a FDA concedeu aprovação acelerada ao fármaco (com o nome comercial Avlayah). Para o oncopediatra e o geneticista, isso representa não apenas um novo tratamento para uma doença ultra-rara, mas a prova de conceito de que a tecnologia de transporte via receptores de transferrina pode ser o "cavalo de Troia" que abrirá portas para tratar outras doenças neurodegenerativas e lisossomais no futuro.

🔗 https://www.nejm.org/doi/abs/10.1056/NEJMoa2508681

Diretrizes ABESO 2026: o fim do tratamento farmacológico isolado para obesidade

A Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e Síndrome Metabólica (ABESO) publicou, nesta última semana de abril de 2026, a sua nova Diretriz Brasileira de Tratamento Farmacológico da Obesidade. O documento traz um posicionamento contundente que deve alterar a conduta em milhares de consultórios: o tratamento farmacológico isolado não é mais recomendado. A nova regra de ouro é que qualquer prescrição de fármacos antiobesidade deve estar obrigatoriamente vinculada a mudanças estruturadas no estilo de vida e acompanhamento multidisciplinar contínuo.

A atualização dos critérios de início do tratamento também foi refinada. Embora o IMC continue sendo a métrica de entrada, a ABESO agora prioriza a "estratificação por complicações". Pacientes com pré-diabetes, apneia do sono ou doença hepática esteatótica (MASH) devem ter o início farmacológico antecipado, mesmo com IMCs mais baixos, visando a intercepção da doença antes do dano orgânico irreversível. A diretriz foi elaborada por uma comissão de 22 endocrinologistas e contou, pela primeira vez, com a participação ativa de representantes de pacientes na definição de metas de cuidado.

Outro ponto de destaque é a meta ideal de perda de peso. A diretriz abandona a busca pelo "peso ideal" estético e foca na "perda de peso metabolicamente significativa", geralmente entre 10% e 15% do peso inicial, como o alvo para remissão de comorbidades. O documento também adverte contra práticas de polifarmácia sem evidências e o uso de "fórmulas magistrais" que misturam ansiolíticos e diuréticos, reforçando a segurança do paciente acima da perda de peso acelerada.

🔗 https://portal.wemeds.com.br/diretrizes-de-obesidade-2026-abeso/

QUICK DROPS

🌎 _Mundo Afora_

FDA: Concedeu a designação de "Breakthrough Therapy" ao plixorafenib para o tratamento de gliomas pediátricos com mutação BRAF V600E. https://www.fda.gov/drugs/novel-drug-approvals-fda/novel-drug-approvals-2026

NEJM: Ponsegromab, um anticorpo monoclonal anti-GDF15, demonstra eficácia em reverter a caquexia em pacientes com câncer avançado, aumentando o apetite e a massa magra. https://www.nejm.org/doi/full/10.1056/NEJMoa2512345

WHO: Relatório final do Dia Mundial da Malária confirma que seis países estão em vias de eliminar a transmissão local até o final de 2026, apesar dos desafios climáticos. https://www.who.int/news/item/25-04-2026-world-malaria-day-report

🇧🇷 _Brasil Adentro_

ANVISA: Publicou a Nota Técnica nº 04/2026, que redefine os critérios de vigilância de infecções em serviços de diálise, instituindo a "regra dos três dias" para atribuição de hospitalização. https://www.ccih.med.br/nota-tecnica-anvisa-no-04-2026-como-a-vigilancia-epidemiologica-redefine-a-seguranca-na-dialise/

MS: Lançou em Recife (PE) o projeto "Mudanças Climáticas, Saúde e Alimentação", focado em mitigar os impactos de eventos extremos na saúde de populações periféricas. https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/noticias/2026/abril/ministerio-da-saude-lanca-projeto-de-enfrentamento-aos-impactos-da-crise-climatica-na-saude-em-recife-pe

ANVISA: Instrução Normativa nº 438/2026 atualiza as especificações do constituinte extrato de rizomas de Curcuma longa L. para suplementos alimentares e fitoterápicos. https://www.legisweb.com.br/legislacao/?id=493805

🩺 NA PRÁTICA — Manejo da Hipercalemia Grave no Pronto-Socorro

A hipercalemia (K+ > 6,5 mEq/L ou alterações no ECG) é uma emergência médica que exige ação imediata. O protocolo deve ser dividido em três pilares sequenciais:

1. Estabilização de Membrana: Gluconato de Cálcio 10% (10-20 mL IV em 5 min). Ele não baixa o potássio, mas protege o miocárdio de arritmias fatais. Duração curta (30-60 min).

2. Shift Intracelular: Insulina regular (10 U) + Glicose 50% (50 mL) IV. O efeito começa em 20 min e dura até 4h. Se houver sobrecarga hídrica, cuidado com o volume; se houver acidose metabólica concomitante, considerar Bicarbonato de Sódio.

3. Eliminação: Furosemida IV se o paciente tiver função renal residual. Em casos refratários ou oligoanúricos, a diálise de emergência é a única solução definitiva. Resinas de troca (Poliestirenossulfonato de Cálcio) têm início de ação lento (2-4h) e não são indicadas para o manejo agudo.

Dica: Sempre monitore o ECG durante a infusão de cálcio. Se o potássio estiver alto por lise tumoral ou rabdomiólise, a vigilância deve ser redobrada para hipocalcemia associada.

📈 CONTRA DADOS NÃO HÁ ARGUMENTOS

"Cerca de 30% dos trabalhadores brasileiros — e até 78% dos médicos residentes em algumas especialidades — sofrem com a Síndrome de Burnout, colocando o Brasil como o segundo país com mais casos diagnosticados no mundo."

🔗 https://fiocruz.br/noticia/2025/01/reporter-sus-classificacao-da-oms-para-sindrome-de-burnout-passa-valer-no-brasil

_De plantão pra você, Will 🎩 | Edição #63_